Negócios do Esporte

Esporte preferido no Rio é passear no Parque
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Erich Beting

Qual o esporte preferido do torcedor brasileiro nessas Olimpíadas? Ao que tudo indica, a visita ao Parque Olímpico leva essa medalha de ouro.

Após a primeira semana de Jogos, o torcedor brasileiro percebeu que nunca mais teremos essa oportunidade.

A crescente procura por ingressos às competições que fazem parte do complexo olímpico na Barra da Tijuca, a escassez de voos na ponte aérea Rio-SP, os preços surreais de hospedagem. Todos são indicativos de que o torcedor entendeu que os Jogos já estão acabando, a festa está muito legal e não tem sentido ficar de fora dessa.

Desde o sábado, o Parque Olímpico se tornou um local de encontro. Polo aquático, handebol feminino, esgrima, nado sincronizado… O esporte é o de menos. Quero ir lá conhecer o Parque, esperar pelo Guga no terraço do complexo Globo/Sportv, tirar foto em qualquer um dos vários anéis olímpicos espalhados no caminho.

Isso sem falar na visita às ações das marcas ali dentro. O show das mascotes do Bradesco, os carregadores com sofá e cadeira na Nissan, a balada da Skol, o museu olímpico da Coca-Cola, as tecnologias de Claro e Samsung.

Ah, tem também a chance de dar um match em alguém nas redondezas. Quem ganhou? Opa, preciso dar um pulo lá na arena para poder ver…

Você acha que tem muito lugar vazio na arena? É que o esporte preferido no Rio é o passeio no Parque.

Ainda não veio? Dá um jeito! Vale. Quem sabe você até vê algum esporte.


Descaso com Havelange mostra novo caminho do esporte
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Erich Beting

João Havelange talvez seja o maior responsável pelo momento atual do esporte. O ex-dirigente, que morreu ontem aos 100 anos de idade, soube como ninguém explorar o crescimento da televisão e do investimento em marketing das grandes empresas nos anos 70 e 80. Fez isso com extrema habilidade, a mesma que demonstrou para, em 1970, ganhar a eleição para a presidência da Fifa, desbancando o status quo europeu.

Havelange foi o hábil negociador que o futebol precisava para se fortalecer. Seu modelo de negócios inspirou também o COI a construir o fenômeno das Olimpíadas. A força do ex-dirigente era tanta que, em 2009, mais de 10 anos após deixar a presidência da Fifa, Havelange costurou a candidatura do Rio de Janeiro para os Jogos Olímpicos do até então longínquo 2016. Seu apoio nos bastidores foi importante para a Cidade Maravilhosa receber os Jogos.

Na celebração da vitória, Havelange prometeu tomar um champagne na sua festa de 100 anos, durante os Jogos.

No ano seguinte, porém, o status do todo poderoso dirigente ruiu. Condenado pela Justiça suíça de receber propina da antiga agência de marketing ISL junto com o genro Ricardo Teixeira, Havelange assumiu a culpa, devolveu parte da grana e, então, foi tirado dos cargos de presidente honorário da Fifa e do COI. Ao mesmo tempo, a presidente Dilma Rousseff tirou dele o passaporte diplomático concedido décadas antes no Brasil.

A perda de prestígio e poder marcaram o início do fim de Havelange, até então um senhor de 94 anos ainda plenamente ativo, diariamente nadando na piscina e viajando pelo mundo em eventos da Fifa e do COI. Mais do que a idade avançada, o que lhe fez mal foi perder o status que havia adquirido ao se impor como grande dirigente mundial, influente a ponto de negociar contratos milionários e se reunir com chefes de estado estando sempre do lado mais forte da relação.

A forma como COI, Fifa e até CBF (o Brasil não enlutou para jogar ontem e hoje as semifinais do futebol) trataram a morte do grande dirigente, porém, mostra como as coisas estão mudando.

Havelange poderia ser referendado como o grande dirigente que levou os Jogos a serem esse colosso. No entanto, foi completamente ignorado durante o evento em que, sete anos atrás, projetava que seria a celebração de seus 100 anos de idade entre aqueles que sempre tiveram a seu lado.

Ao Havelange ser colocado no ostracismo, percebemos que o esporte começa a mudar sua configuração. Não cabe mais um dirigente corrupto entre os grandes do esporte.

Por mais que tenha sido grande responsável por toda a transformação do esporte como negócio, pode ser que Havelange tenha sido apenas o cara na hora certa. Com o apetite de investimento da mídia e das marcas nos anos 80 pelo esporte, era natural que ele se tornasse um grande negócio… O ocaso com que sua morte foi tratada pelos seus pares, porém, mostra que as coisas estão mudando.


A imensa construção de histórias das Olimpíadas
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Erich Beting

Os Jogos Olímpicos possuem uma capacidade enorme de geração de boas histórias. E de colocar em conflito constante o que acontece na disputa esportiva com aquilo que vivemos na vida real. Desde o início dos Jogos, criamos no Boletim Máquina do Esporte uma seção dedicada ao Personagem do Dia. Não é o campeão do dia, mas aquele que traz a maior história humana sobre o evento.

Historicamente, os Jogos são marcados por grandes histórias, mais do que grandes campeões. De vez em quando, muito raramente, as duas coisas ocorrem juntas. Ontem, nos 100m livre feminino da natação, essa união se deu de forma mágica.

Uma prova que teve duas campeãs empatadas em 52s70, novo recorde olímpico. Mas que também teve a primeira campeã olímpica nascida neste milênio, a canadense Penny Oleksiak. Mas que entrará para a história como a prova que coroou a primeira negra campeã da natação nas Olimpíadas, a americana Simone Manuel.

“Essa vitória ajuda a trazer esperança de mudança sobre algumas questões que estão acontecendo no momento. Eu só fui lá e nadei o mais rápido que eu podia, mas minha cor de pele vem com todo meu repertório para isso”, declarou Simone.

Por solicitação da TV americana, as provas da natação acontecem no fim do dia aqui no Rio. Tudo para que a audiência dos Jogos seja cada vez mais alta.

E, ontem, a piscina do Rio 2016 presenciou a construção de uma nova história olímpica. Os EUA vivem um período de intensa discussão sobre conflitos raciais, especialmente envolvendo policiais brancos contra americanos negros. Soma-se a isso uma preocupante escalada de Donald Trump e seus conceitos um tanto quanto radicais nas prévias eleitorais americanas.

Simone Manuel não é só a primeira negra a vencer a natação em Jogos Olímpicos. Mais do que isso, ela mesmo sabe que sua conquista acontece num momento emblemático de aumento dos conflitos raciais, étnicos e religiosos pelo mundo inteiro.

A vitória de Simone Manuel e Penny Oleksiak nos 100m livre feminino é a prova de que os Jogos Olímpicos são formados não por vencedores, mas por ótimas histórias. Às vezes, até em menos de um minuto de prova…


É preciso aprender a treinar para a derrota
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Erich Beting

Jogar em casa ajuda ou atrapalha? A pergunta deverá ser feita para praticamente todos os 465 atletas do Time Brasil nesses Jogos Olímpicos. Já vinha, aliás, sendo feita por nós da mídia, vocês da torcida, pela turma de dirigentes, talvez quem sabe até pelo psicólogo do atleta…

Essa inquietação em dar tanta bola assim para a torcida mostra que não estávamos preparados para saber o que fazer com o fator casa nos Jogos Olímpicos. Será que jogar em casa requer mais preparo? Ou menos afobação? É preciso ser coração ou razão? Ansiedade demais ajuda ou atrapalha?

O fato é que o Brasil não sabe perder. Não conseguimos ainda entender a lidar com a frustração da derrota. Com a necessidade de nos explicarmos diante das câmeras, para nossos pais, cônjuges, filhos, muito menos para o nosso travesseiro.

Perder é sofrido. O choro de explosão de Diego Hypólito quando finalmente completou um exercício de solo sem falhas numa Olimpíada é exatamente o reflexo dessa nossa difícil relação com a derrota.

A expressão ''o que é que eu vou dizer lá em casa?'' parece incomodar demais e atrapalhar demais o atleta.

Deve ser cultural. Somos um povo que acredita que os problemas se resolvem quando encontramos o culpado. É só apontar o dedo que, milagre, resolvemos as coisas. E isso passa a ter um reflexo direto na condução da atitude de nossos atletas, especialmente quando joga em casa.

Foi a crucificação de Rafaela Silva em 2012, para o cala-boca de 2016. E se Rafa não tivesse vencido agora? Ela estaria preparada para nova frustração olímpica? E nossa torcida, saberia perder junto com ela?

Novak Djokovic chorou copiosamente ao cair para Del Potro na primeira rodada do tênis. Minutos depois, refez-se publicamente da desilusão, disse que as derrotas faziam parte, mesmo as mais doloridas, declarou-se feliz pela conquista de seu amigo argentino que volta e meia sofre com lesões. Ele sabia que um novo dia começaria. Já está pelo Rio aproveitando um pouco a indigesta folga para torcer por atletas do seu país.

Por aqui, nossos atletas mostram que ainda não sabem lidar com a frustração da derrota. Cesar Cielo, que era a grande aposta do mercado publicitário, sumiu após não se classificar para o Rio. Rodrigo Pessoa abandonou o time de hipismo ao saber que seria suplente. Alguns atletas têm evitado dar entrevistas quando as coisas não saem como o planejado (o time de futebol antes dos 4 a 0 é um dos exemplos disso).

O atleta precisa estar preparado para a derrota. Não é ensaiar o discurso e ser vazio ao responder sobre ela quando questionado. Um grande atleta precisa saber se comunicar. Sumir diante do problema é só mais uma prova de que ele não sabe perder. Os Jogos no Brasil podem ser uma ótima oportunidade para mudar essa falha histórica.

Temos de treinar não apenas para vencer. Mas para saber o que fazer quando perder. Passar a mão na cabeça do atleta e evitar sua exposição para falar sobre uma derrota é só um desserviço que nossos gestores fazem para o desenvolvimento do esporte no Brasil.


Filas no Rio mostram imaturidade na gestão esportiva no Brasil
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Erich Beting

As irritantes filas nas arenas olímpicas persistiram no segundo dia de Jogos. Na tentativa de encontrar os motivos para faltar comida, levar 1h para comprar um refrigerante ou comprar um item e ele ter acabado no tempo em que se esperava, o Comitê Rio 2016 argumentou que há uma ''falha operacional''.

A tradução para a frase é: ''imaturidade''.

O Rio 2016 mostra que não aprendeu absolutamente nada com a Copa do Mundo. Ou mesmo com a realização do Rio Open, desde 2014, na mesma Cidade Maravilhosa. Isso para não considerarmos Carnaval e Copa do Mundo na lista…

O espetáculo esportivo continua sendo encarado, por aqui, como algo que só tem um local para acontecer, que é dentro da arena. O espaço para a competição precisa estar em ordem. E só.

É exatamente essa visão antiquada de como se trabalhar o evento esportivo que o futebol começou a quebrar pós-Copa. Entendemos que não seria possível mais esquecer de olhar para o torcedor, a mídia, o patrocinador. Hoje eles também são importantes para o espetáculo. Não mais do que o atleta, sem dúvida, mas precisam ser bem tratados.

Foi assustador chegar ao Parque Olímpico ontem e me deparar com a logística de compra de alimentos e bebidas, tanto nas arenas quanto nas áreas de conveniência do local que mais recebe gente nos Jogos.

Todos os alimentos e bebidas são comprados num caixa único. Ou seja. Se eu quero uma pipoca, tenho de ir lá na mesma fila de quem quer uma água ou uma cerveja. E, depois, eu tenho de me espalhar pelos diferentes quiosques de entrega de produtos.

O responsável por pensar essa logística, muito provavelmente, nunca foi a uma festa junina de escola primária.

Em vez de pulverizar os canais de compra, concentra-se tanto a compra quanto a distribuição. Não precisa ter nem experiência em megaevento para saber que isso torna até mesmo a compra de cinco pessoas num mesmo lugar inviável.

O Rio 2016, preocupado em erguer ótimas arenas e dar o máximo de qualidade para os atletas, esqueceu-se de que o show também tem um importante ator. O torcedor foi simplesmente ignorado. Esquecem-se, os organizadores, que são eles que espalham a fama do evento.

Quem está em casa vendo pela televisão uma partida de basquete pode achar que o ginásio estava com muitos lugares vazios. Pois saiba que tem muita gente que está na parte interior da arena, há meia hora, esperando para pegar uma ficha, para então ir para outra fila, para pegar apenas um saquinho de pipoca…

E a organização está tão perdida na resolução do problema que continua a importar food trucks, não entendendo que o problema não é apenas a falta de produto, mas os canais de venda.

Muito provavelmente não falharemos como Atenas e o padre irlandês, ou como a  China no sumiço da vara de uma competidora no salto com vara que era favorita à medalha.

Mas erramos num princípio básico dos grandes eventos, que é causar uma ótima impressão para o torcedor levar adiante uma boa imagem dos Jogos e da cidade que o abriga.

As falhas na organização da alimentação dos torcedores são a prova de que seguimos imaturos na gestão esportiva aqui no Brasil…

 


Rio pode mudar a relação das marcas com Jogos
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Erich Beting

Quando o torcedor chegar ao Parque Olímpico no sábado para as primeiras competições do Rio 2016, vai se deparar com uma situação não tão comum em Olimpíadas. Diversas marcas estarão com stands expostos para entreter o torcedor. A novidade brasileira tem relação com algumas características locais que podem levar para um outro patamar a relação entre patrocinadores e Comitê Olímpico Internacional (COI).

A revolução promovida pelo COI nos anos 80, que ajudou a transformar os Jogos Olímpicos num assombro comercial, já está precisando ser revista. Com valores de patrocínios cada vez mais altos, mas com a atenção do consumidor cada vez mais dividida, investir na Olimpíada precisa ter um novo significado. Não adianta mais ficar na fórmula em que a exposição de marca inexiste.

E aí é que entra o cenário do Rio.

Os patrocinadores terão, no parque, mais exposição de suas marcas e oferecerão mais experiências inéditas aos torcedores. Isso é uma forma encontrada pelo COI de ampliar o relacionamento do público com as empresas e, das marcas, de poderem se aproveitar de benefícios exclusivos.

“É muito bom poder ver a nossa parceria com a Samsung crescendo. Temos pela primeira vez uma linha exclusiva de produtos, e também esse espaço aqui, além daquele que sempre foi feito para os atletas”, resumiu, na terça-feira, durante a apresentação à imprensa do espaço da Samsung no Parque Olímpico, Timo Lumme, diretor geral de marketing e TV do COI.

O executivo mostra que a preocupação do comitê é ir além da simples relação de patrocínio + ativação na mídia. A Samsung dá um ótimo exemplo disso. A marca aproveitou que terá o stand no parque olímpico para apresentar um arsenal de novidades tecnológicas. O torcedor poderá usar óculos de realidade virtual, testar o modelo de telefone personalizado dos Jogos e comparar como evoluiu o patrocínio da empresa às Olimpíadas por meio das inovações nos aparelhos de telefone celular produzidos pela marca.

De certa forma, é a maneira de aplicar o conceito de ativação de patrocínio de um grande evento. Se, antes, o mercado se satisfazia em fazer isso por meio de filmes publicitários, agora ele necessita que o torcedor vivencie uma experiência de marca durante o evento.

Aos poucos, o mercado de marketing esportivo vai se adaptando às novas realidades. Os megaeventos acabam servindo como plataforma para lançamento de inovações das marcas. E, no Rio, a novidade é que isso será feito, quase que em tempo real, com os torcedores que forem aos Jogos.


COI tenta manter Olimpíada jovem com novos esportes
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Erich Beting

Surfe, skate, escalada, caratê e beisebol serão as novidades do programa olímpico a partir de 2020. À exceção das duas últimas modalidades, incluídas muito também por conta do peso que possuem no Japão, país-sede do evento daqui a quatro anos, a escolha do Comitê Olímpico Internacional (COI) mostra muito a preocupação que existe para manter acesa – e jovem – a chama dos Jogos Olímpicos.

Desde Londres-2012 que o COI se preocupa em tentar entender como os Jogos podem se relacionar com o jovem. A invasão das redes sociais tumultuou todo o esquema de venda de direitos de transmissão do evento. As regras rígidas de controle sobre quem pode publicar o que não ajudam a trazer o jovem para perto dos Jogos. E, para piorar, a tradição de um evento centenário faz com que os mais novos estejam longe de achar que a Olimpíada é um evento para eles.

A escolha de surfe, escalada e skate fere o princípio olímpico. Como pode um maratonista ter o mesmo status de um skatista? Ou de alguém numa escalada? Pode. E terá, cada vez mais, uma função importante para a estratégia de comunicação com o público do COI.

Se não abrir os olhos para os esportes que surgiram e cresceram nos últimos 50 anos, o COI rapidamente cairá no mesmo erro de uma Fórmula 1, que cada vez mais se aproxima do nicho, sem renovar o seu consumidor.

A tarefa principal do COI é preservar o espírito olímpico que fez a fama dos Jogos e do próprio comitê. Para isso, não só a tradição tem de ser preservada. É preciso renovar, sempre, o interesse das pessoas pelas Olimpíadas. Ou, como afirmou Thomas Bach, presidente do comitê, ao justificar as escolhas:

''Queremos levar o esporte ao jovem. Com as diversas opções que os jovens têm, não podemos mais esperar que eles venham até nós. Temos de ir até eles'', afirmou.

A tendência, para o futuro, não é apenas a inclusão de outros esportes não-tradicionais nas Olimpíadas, mas também a exclusão de algumas modalidades que foram importantes, mas que hoje representam dispêndio de tempo e grana para os organizadores, sem gerar tanto envolvimento do público.

O COI precisa do jovem. E mostrou que pode romper um pouco a tradição para ir em busca dele. Falta, agora, o comitê ter o mesmo tipo de atitude em relação ao trabalho que faz com a mídia. Especialmente nas redes sociais.


Clima olímpico desembarca no Rio
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Erich Beting

A cada ponto de ônibus, uma propaganda de um patrocinador. Nas ruas, voluntários, profissionais de mídia e até mesmo atletas transitam entre as pessoas. Se alguém tinha dúvidas se os Jogos Olímpicos aconteceriam, elas começaram a ser sanadas desde a segunda-feira, dia 1º.

A virada do mês representou também a chegada do clima olímpico ao Rio. Os transtornos do trânsito adaptado à faixa olímpica, o aumento da muvuca no metrô, a confusão de uma cidade ainda em construção quando deveria estar pronta para os Jogos.

Tudo isso começa a ser colocado para escanteio, à força, pela chegada do evento. Não tem mais o que fazer a não ser entrar no espírito olímpico. O evento acontecerá, apesar dos erros do Rio de Janeiro.

E é esse o ponto de virada que tomou conta do Rio desde segunda-feira. Há uma semana, quem vinha à cidade sentia que algo estava para acontecer, mas ainda era uma realidade distante. Agora, com a Olimpíada invadindo cada local de convívio do carioca, o caminho é sem volta.

Publicidade nos pontos de ônibus e até pista de atletismo no metrô dão o clima olímpico ao Rio

Publicidade nos pontos de ônibus e até pista de atletismo no metrô dão o clima olímpico ao Rio

Mas por que isso acontece?

A maior lição que um megaevento nos deixa é sobre a necessidade que existe de patrocinadores, parceiros de mídia, organizadores do evento e poder público se engajarem para fazer o evento ''pegar''. A diferença que existe é gritante, especialmente num mercado ainda em desenvolvimento como a indústria do esporte brasileira.

Acostumamo-nos, por aqui, a apenas nos preocupar com o evento esportivo apenas no que se refere ao âmbito da competição entre atletas. Assim, negligenciamos toda a parte de promoção do evento, que fica quase sempre relegada ao deus-dará da mídia, que atua com o compromisso de ser fiel aos fatos, não ao negócio.

Quando chega um megaevento, em que o próprio país despeja um grande montante de investimento (em dinheiro e energia), a necessidade de fazer o evento pegar é enorme. Por isso, há uma cobrança forte por parte do Comitê Olímpico Internacional em cima de parceiros comerciais, de mídia e cidade-sede para que os Jogos aconteçam.

Se há um legado que os Jogos deixam é o da importância de se fazer um evento cair no gosto das pessoas para ser um sucesso. E que, para conseguir isso, é preciso trabalhar bastante.

Não existe mágica. Assim como a conquista de uma medalha, é preciso de muito esforço para que o evento seja percebido pelo público. Negligenciar a importância de criar um clima antes do evento é o primeiro erro. Demorou, mas o Rio mostra que essa primeira etapa foi vencida.


Qual Brasil queremos ser?
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Erich Beting

A pergunta, se não me falha a memória, já surgiu em outro post no longo dos sete anos de processo entre a escolha por candidatura única do Brasil a sede da Copa do Mundo e o Mundial em si. E, agora, ela é repetida, de forma ainda mais enfática, dada a situação do país como um todo.

Que país queremos ser?

Está chegando a hora de passarmos pelo nosso segundo megaevento. E, com ela, a cobrança que isso gera para o país. Podemos achar normal entregar uma obra ainda sem os arremates finais. Atrasar o cronograma em ''alguns diazinhos''. Gastar com extras supérfluos dentro de algo grandioso.

Na cabeça do estrangeiro, isso não é normal. Por isso mesmo, as críticas aparecem de forma pesada. E tornam proporções mundiais.

O maior problema, porém, é que simplesmente não sabemos aceitar essa crítica.

O ''chute no traseiro'' de Jérôme Valcke e o ''canguru'' australiano foram prontamente rebatidos com veemência pelos nossos políticos. E da pior forma possível. Tratamos as críticas como algo que fere a soberania nacional, sem fazermos o serviço de autocrítica de como nos comportamos ao longo de 6 anos e meio de preparação para os Jogos Olímpicos.

 

Pior ainda é ver como Eduardo Paes tenta desmerecer as críticas que o Rio recebe, ou tenta ironizá-las, sem ao menos fazer a mea culpa e reconhecer que o erro é todo nosso. Imagino qual seria a reação do digníssimo prefeito do Rio se ele chegasse a um hotel em Maricá que estivesse sujo. Se é que ele aceitaria se hospedar em Maricá…

O exercício que Copa do Mundo e Jogos Olímpicos deveriam ter gerado para nós, brasileiros, era o de exame da consciência. Os megaeventos servem para apresentar nosso país ao mundo. Que imagem queremos deixar? A de um país encantador, mas cheio de defeitos? Ou a de um país encantador, que batalha e se esforça para ser de primeiro nível?

A Copa já havia mostrado para o estrangeiro que, apesar dos pesares, fizemos um evento espetacular. As Olimpíadas, como expus aqui outro dia, também nos deixarão a mesma impressão. ''No final dá certo'', mas qual o preço que se paga por isso?

Quando nossos políticos se comportam como crianças birrentas diante de um puxão de orelha ao rebater as críticas que são recebidas, nós colocamos a perder a grande chance que havia com os megaeventos. Eles poderiam ajudar a mostrar ao mundo que o brasileiro é um povo muito mais do que apenas cativante. Somos preparados, dedicados, batalhadores.

Bilhões de reais estão sendo investidos por empresas privadas nos Jogos Olímpicos para ajudar a transformar a imagem do país para o estrangeiro. Empresas que têm investido bastante para tentar promover o evento e fazer com que ele seja realmente transformador, de alguma forma, da nossa realidade. 

Quando ironiza as críticas sobre as falhas da organização do evento, Eduardo Paes joga contra não apenas a própria imagem, mas também a do Brasil como um país que cresceu e chegou à fase adulta. O Brasil que queremos ser ficou, mais uma vez, deitado eternamente em berço esplêndido…


Procura por Rio 2016 dá motivo para “soberba” do COI
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Erich Beting

Primeiro foi o Zika. Depois, a falência do Estado. Agora, as reclamações que sempre acontecem pré-Jogos com os primeiros a desembarcarem na Vila Olímpica (e que quase sempre estão corretas). Coloque mais alguns ingredientes nesse bolo. Um país com uma instabilidade política enorme, cercado por constantes protestos. A violência local flagrante. E o medo de um novo modelo de terrorismo, muito mais imprevisível e solitário. Tudo isso num ambiente que é completamente novo para os Jogos Olímpicos.

A lista de motivos para não ir ao Rio de Janeiro no próximo mês parece ser, a cada dia, mais extensa. No mesmo dia em que o Comitê Organizador do Rio 2016 colocou 100 mil ingressos à venda, o Ministério da Justiça brasileiro disse ter capturado dez pessoas que agiam de forma suspeita, planejando um ataque terrorista ao evento. Se havia mais um bom motivo para não sair de casa, ele apareceu ali, sem nem disfarçar sua cara de zombeteiro.

Mas, no final das contas, já são 75% dos ingressos vendidos para o Rio 2016. Sim, é possível usar o ''já'' na expressão. Afinal, esses Jogos são num país com baixíssima cultura poliesportiva e em meio a situações nem um pouco convidativas para acompanhá-los. E, mesmo assim, a meta de faturamento com a venda de ingressos já foi alcançada e pelo menos 3/4 das arenas estarão preenchidas.

A carga de 100 mil ingressos extras se esgotou, e os eventos ''encalhados'' são aqueles que não têm muito apelo nem para o público nacional, nem para o estrangeiro. É parte do jogo das Olimpíadas termos eventos de baixo interesse das pessoas. Em Londres, há quatro anos, as primeiras disputas aconteceram com clarões na arquibancada que coraram a família real. Depois de colocarem guardas do exército para preencher os espaços, o comitê optou pela decisão mais óbvia. Recolocou os ingressos à venda na bilheteria. E as arenas lotaram…

Outro dado que chama a atenção para o Rio é a venda de produtos licenciados. O Rio 2016 já fala em conseguir superar em 17% a estimativa inicial de venda. Sinal de que as pessoas têm procurado os produtos com a marca dos Jogos.

Em meio ao caos pré-olímpico, o Rio de Janeiro dá ainda mais motivo para o Comitê Olímpico Internacional (COI) poder dizer que os Jogos são o maior evento do planeta. Na falta de um, o Rio deu dezenas de motivos concretos para que as pessoas não se deslocassem até a cidade para acompanhar os Jogos. E, mesmo assim, o evento aparentemente vai ser um sucesso.

Aos 120 anos, os Jogos Olímpicos conseguem se descolar da realidade local e entregar para o público um evento de alto grau de interesse. E, para o COI, fica a certeza. A soberba apresentada quando se impõe uma série de condições para uma cidade ser candidata a receber uma Olimpíada tem a sua parcela de razão.