Negócios do Esporte

NBA mostrou como o esporte precisa fazer no Rio
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Erich Beting

Após 20 dias no Rio de Janeiro para a cobertura das Olimpíadas, a volta à rotina do cotidiano esportivo brasileiro desinflado dos megaeventos é um tanto quanto dura. A retomada do futebol insosso de meio de semana (São Paulo e Flamengo que o digam), as ações de marca praticamente inexistentes nos estádios, a falta de engajamento da mídia na cobertura de esportes em geral, tudo vai aos poucos nos recolocando de volta às dificuldades do dia-a-dia.

Mas, na batalha de tentar tirar algo de bom do que foram os Jogos Olímpicos, muito provavelmente a NBA terá alguns pontos de vantagem em relação aos demais esportes e ligas. A liga americana de basquete apostou no conceito da NBA House no Rio. Montou um espaço no Boulevard Olímpico, atraiu parceiros comerciais e, acima de tudo, criou um “parque de diversões'' do basquete para o torcedor que não estava dentro dos Jogos.

A casa recebeu 80 mil pessoas, ante uma expectativa de 50 mil (leia os detalhes aqui). Mas, mais do que receber gente e vender produto, a NBA usou o relacionamento com o torcedor para conhecer um pouco mais sobre ele.

O maior legado que existe na casa montada pela liga foi pegar dados de contato desses torcedores. Saber como e quando eles assistem ao basquete, de que forma tem interesse em ver os jogos da NBA, se curte também o basquete local, etc.

Ter acesso a informação de qualidade é vital para que as marcas possam entender melhor como explorar o esporte. A NBA soube criar um espaço de relacionamento não apenas para o torcedor se divertir no Rio, mas para gerar vendas e, mais além, conhecer melhor seus hábitos de consumo.

O maior problema que existe hoje quando uma entidade esportiva tenta vender algum projeto no Brasil é que quase nunca ela sabe apresentar uma solução de negócios para o patrocinador. Sem conhecer o seu cliente, a modalidade aponta a exposição de marca que gera e o histórico de conquistas, sem perceber que o real valor não é o que ela foi, mas o que ela pode gerar para o parceiro comercial.

A NBA, com sua casa, deu uma aula ao esporte brasileiro de como é possível divertir o público. E usar isso como ferramenta para conhecê-lo melhor.


Brasil pode viver para além do futebol
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Erich Beting

Quando poderíamos imaginar que o futebol no Brasil perderia público para outros esportes? Pois bem. O levantamento feito na Máquina do Esporte com o comportamento do público no último final de semana mostra exatamente isso.

No fervor do fim de semana derradeiro dos Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro, o torcedor optou por não sair de casa para poder acompanhar mais o que acontecia no vôlei, no basquete, no atletismo do que o time de coração no estádio.

Leia aqui: Jogos Olímpicos tiram público do estádio no Brasileirão

O futebol continua a ser o esporte número 1 do Brasil e nunca deverá perder esse status. Mas uma coisa é importante frisar. Há caminho para outras modalidades existirem – e ganharem dinheiro – por aqui.

O esforço, agora, é usar os Jogos para que outros esportes sejam impulsionados no país. Do Rio, ginástica, vôlei, atletismo e basquete saem fortalecidos. Foram modalidades que trouxeram o público para perto.

A ginástica, se não lotou todos os eventos, conseguiu espetaculares índices de audiência na TV aberta e na fechada (entenda aqui). O vôlei, com o ouro masculino na praia e na quadra, teve um resultado alentador para uma modalidade que sofre ao passar por uma dura reformulação gerencial. O basquete, por meio da NBA, mostrou que é um esporte popular e com potencial de crescimento. O atletismo, com Bolt, achou um motivo para ser consumido.

Para os gestores, a lição é batalhar para trazer novos – e grandes – eventos para o país.

Para a mídia, ficou claro que, ajudando a promover o esporte, é possível ter ganho de audiência e receita.

Para o patrocinador, o recado que fica é que existem outras formas de se justificar um investimento ao esporte que vão além da exposição de marca e do índice alto de audiência.

Para o torcedor, a experiência com novos esportes é um indício de que há muita coisa legal além do futebol.

Se há um recado, mais do que legado, que o Rio deixa, é de que temos como viver além de esporte. Mesmo que aqui seja o país do futebol.


Dinheiro não falta ao Brasil para ser top 10
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Erich Beting

A busca alucinada por medalhas do Comitê Olímpico do Brasil (COB) nos últimos quatro anos resultou naquilo que era esperado. Na hora de explicar o motivo de a meta de estar entre os dez maiores do mundo nos Jogos do Rio de Janeiro, o comitê saiu pela tangente: minimizou a posição final e exaltou o “melhor desempenho da história'', com aumento de presença em finais, maior número de medalhas da história de uma edição olímpica e pulverização de conquistas por diferentes modalidades.

Sim, tudo isso é verdade. Mas a realidade não dá tantos motivos para celebrar. O Brasil foi uma das nações que mais dinheiro despejou para a preparação de atletas no mundo. A falta de dinheiro e de empenho em investir não podem, hoje, serem usadas como muleta para justificar um desempenho abaixo do esperado no país.

O fato é que dinheiro não falta para o Brasil ser um país entre os dez mais potentes do esporte no mundo. Onde, então, estamos errando?

A conta é simples. O investimento que as confederações fizeram, no último ciclo olímpico, tinha como objetivo o alto rendimento de alguns atletas. Foram pagas viagens para melhorar desempenho, salários mais altos para se ter maior dedicação aos treinos, treinadores internacionais para trazerem maior conhecimento, etc. Pouco, para não dizer praticamente nada, foi feito para ampliar a base de praticantes daquela modalidade.

O que esse pensamento focado em medalha causa é uma distorção do processo de criação de uma nação que de fato seja uma potência esportiva.

Ao despejarmos muito dinheiro em poucos potenciais campeões, desestimulamos toda a cadeia. Não há condições para a formação de novos atletas e, pior, por estar com mais dinheiro, o atleta de alto rendimento que é beneficiado com Bolsa-Pódio, Bolsa-Medalha, Bolsa-Atleta, carreira militar, etc. não quer parar de competir, porque sabe que isso significará para ele a perda de receita. E, assim, criamos um modelo engessado, em que quem tem dinheiro continua a ter mais dinheiro, impedindo que novos talentos apareçam.

Um dos esportes que mais investe na base, no Brasil, é o futebol. E isso explica, em parte, o segredo do sucesso brasileiro em formar jogadores de futebol. Como é um grande negócio vender jogador, os clubes colocam um dinheiro a fundo perdido na formação de talentos. CTs modernos, equipes técnicas qualificadas, estrutura para o atleta se desenvolver pessoal e profissionalmente.

Assim como o COB, o clube de futebol foca seu investimento no alto rendimento. A preocupação é com o atleta vencedor. Mas o clube sabe que, para gerar mais dinheiro e manter um time competitivo, de nada adianta contratar o Messi e ter outros 10 coadjuvantes em campo.

Essa, porém, é a realidade de muitos esportes no Brasil. Investimos tudo em um único atleta, o que coloca sobre ele a pressão para obter resultado. A melhoria do país no quadro de medalhas e até mesmo em participação em finais não revela muita coisa sobre o rumo que temos tomado para crescermos como nação esportiva.

Muito mais importante do que colecionar medalhas é empregar os esforços para a disseminação da prática de atividade física no país. Isso só acontece se houver dinheiro, claro. Mas não um dinheiro para ser empregado em 50 potenciais atletas, excluindo-se dessa lista praticamente cem vezes mais de pessoas, por todo o país, que podem vir a ser um representante do país numa edição de Jogos Olímpicos.

A função das entidades esportivas como o COB – e do próprio governo – é ajudar na formação de atletas no país, e não investir a maior parte dos recursos em quem tem melhor desempenho. Essa mentalidade é para ser usada pelas empresas privadas que usam o esporte para ganho de imagem e/ou vendas. Para elas, só o craque daquela modalidade interessa.

Pelo dinheiro que o COB e as confederações tiveram à disposição de 2012 para cá, o Brasil não estar entre as dez nações mais vitoriosas do Rio 2016 é um motivo a mais para nos preocuparmos. Enquanto os recursos não forem enviados para a disseminação da prática esportiva, seguiremos adotando um critério que foi inventado pelos americanos e seu conceito de que “sem ouro, sem medalha''. Basta comparar as realidades de um país e de outro para termos a certeza de que estamos no caminho errado.

Não falta dinheiro ao esporte no Brasil. O que falta, mais uma vez, é empregar de forma correta a verba.


Que roteiro do ouro olímpico é esse?
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Erich Beting

O roteiro da conquista do primeiro ouro olímpico do futebol no Brasil foi espetacular. Nem que o mais Zagallo dos Zagallos quisesse, conseguiríamos ter pensado em escrever dessa forma a história do fim do mais incômodo jejum do time brasileiro.

Mas hoje, muito provavalemente, o Brasil colocou abaixo Maracanazzo e Mineirazzo na mesma cobrança de pênalti de Neymar. Neymar que lembrou Zagallo ao dizer que “vão ter de engolir''. E que engoliu as críticas – justas e injustas – para se transformar no protagonista que sempre se espera dele.

A forma como atuou nos três jogos de mata-mata dessa Olimpíada mostrou que ele pode ser capitão do time e, também, protagonista na seleção principal. Como foi Ronaldo, Romário, Pelé. Sim, Neymar se coloca agora no mesmo patamar desses grandes nomes. Não pelo que ainda não fez dentro de campo, mas pelo que conseguiu liderar o time brasileiro para uma conquista inédita, dentro de casa, num país que não sabe lidar com o fator casa.

Qualquer Brasil x Alemanha, depois dos 7 a 1, será cercado de toda essa história de revanche, apagar o passado, fim da humilhação, etc. Não será possível. Assim como o roteiro da primeira medalha de ouro do futebol brasileiro não tem como ter sido mais bonito.

Foram três quedas em finais para conseguir a tão sonhada medalha dourada. Em casa, com um time desacreditado e com um craque contestado. Nos pênaltis, contra o maior algoz da nossa história, depois da maior humilhação de nossa história numa Copa do Mundo, também em casa.

Neymar tem tanta estrela que os dois gols decisivos dele hoje aconteceram na bola parada. Para que todos pudessem parar para ver. Aplaudir. E mostrar que o Brasil tem um líder dentro de campo, apesar de tudo o que está errado fora dele.

A conquista do Brasil não apaga os erros da CBF. Mas é uma mostra de que o futebol do Brasil não pode nunca ser subestimado. A renovação de atletas sobrevive aos desmandos dos dirigentes. Até nisso o roteiro do ouro não teria como ser escrito de outra forma…

Tags : futebol


A invasão ao Rio é um alento à Paralimpíada
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Erich Beting

A invasão ao Rio de Janeiro neste final de semana, seja de turistas ou até mesmo da população local, pode ser um alento para os Jogos Paralímpicos, que daqui 15 dias começa na Cidade Maravilhosa.

O comentário geral de quem está por aqui, perguntando por ingressos ou por “qual é a casa mais legal para ir'', é de que demorou-se muito para entender que a oportunidade era única. Conhecer o Parque Olímpico, vivenciar o clima de uma Olimpíada, ir ver a pira no Boulevard Olímpico, ir conhecer toda a região do Porto Maravilha, etc.

Ao mesmo tempo, na sexta-feira o Comitê Paralímpico Internacional confirmou que precisou reduzir o orçamento das Paralimpíadas, que começa dia 7 de setembro e tem apenas 12% dos ingressos vendidos até agora.

Quem tentou e não conseguiu chegar a tempo dos Jogos Olímpicos terá, em breve, a chance de ir ao mesmo Parque Olímpico. A vivenciar uma experiência inédita, que é conhecer a Paralimpíada, as histórias fantásticas dos atletas e, também, ver o Brasil faturar bastante medalha, que é também um dos esportes preferidos do país.

Nas próximas duas semanas, a obrigação do Comitê Rio 2016 é vender o conceito de que ainda há uma chance de ver o Rio das Olimpíadas. Só um bom trabalho de divulgação agora poderá ser capaz de fazer, pela última vez, o Rio bombar para os Jogos. Em menor proporção, mas num tamanho nunca antes visto pelo esporte paralímpico no país.


Esporte preferido no Rio é passear no Parque
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Erich Beting

Qual o esporte preferido do torcedor brasileiro nessas Olimpíadas? Ao que tudo indica, a visita ao Parque Olímpico leva essa medalha de ouro.

Após a primeira semana de Jogos, o torcedor brasileiro percebeu que nunca mais teremos essa oportunidade.

A crescente procura por ingressos às competições que fazem parte do complexo olímpico na Barra da Tijuca, a escassez de voos na ponte aérea Rio-SP, os preços surreais de hospedagem. Todos são indicativos de que o torcedor entendeu que os Jogos já estão acabando, a festa está muito legal e não tem sentido ficar de fora dessa.

Desde o sábado, o Parque Olímpico se tornou um local de encontro. Polo aquático, handebol feminino, esgrima, nado sincronizado… O esporte é o de menos. Quero ir lá conhecer o Parque, esperar pelo Guga no terraço do complexo Globo/Sportv, tirar foto em qualquer um dos vários anéis olímpicos espalhados no caminho.

Isso sem falar na visita às ações das marcas ali dentro. O show das mascotes do Bradesco, os carregadores com sofá e cadeira na Nissan, a balada da Skol, o museu olímpico da Coca-Cola, as tecnologias de Claro e Samsung.

Ah, tem também a chance de dar um match em alguém nas redondezas. Quem ganhou? Opa, preciso dar um pulo lá na arena para poder ver…

Você acha que tem muito lugar vazio na arena? É que o esporte preferido no Rio é o passeio no Parque.

Ainda não veio? Dá um jeito! Vale. Quem sabe você até vê algum esporte.


Descaso com Havelange mostra novo caminho do esporte
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Erich Beting

João Havelange talvez seja o maior responsável pelo momento atual do esporte. O ex-dirigente, que morreu ontem aos 100 anos de idade, soube como ninguém explorar o crescimento da televisão e do investimento em marketing das grandes empresas nos anos 70 e 80. Fez isso com extrema habilidade, a mesma que demonstrou para, em 1970, ganhar a eleição para a presidência da Fifa, desbancando o status quo europeu.

Havelange foi o hábil negociador que o futebol precisava para se fortalecer. Seu modelo de negócios inspirou também o COI a construir o fenômeno das Olimpíadas. A força do ex-dirigente era tanta que, em 2009, mais de 10 anos após deixar a presidência da Fifa, Havelange costurou a candidatura do Rio de Janeiro para os Jogos Olímpicos do até então longínquo 2016. Seu apoio nos bastidores foi importante para a Cidade Maravilhosa receber os Jogos.

Na celebração da vitória, Havelange prometeu tomar um champagne na sua festa de 100 anos, durante os Jogos.

No ano seguinte, porém, o status do todo poderoso dirigente ruiu. Condenado pela Justiça suíça de receber propina da antiga agência de marketing ISL junto com o genro Ricardo Teixeira, Havelange assumiu a culpa, devolveu parte da grana e, então, foi tirado dos cargos de presidente honorário da Fifa e do COI. Ao mesmo tempo, a presidente Dilma Rousseff tirou dele o passaporte diplomático concedido décadas antes no Brasil.

A perda de prestígio e poder marcaram o início do fim de Havelange, até então um senhor de 94 anos ainda plenamente ativo, diariamente nadando na piscina e viajando pelo mundo em eventos da Fifa e do COI. Mais do que a idade avançada, o que lhe fez mal foi perder o status que havia adquirido ao se impor como grande dirigente mundial, influente a ponto de negociar contratos milionários e se reunir com chefes de estado estando sempre do lado mais forte da relação.

A forma como COI, Fifa e até CBF (o Brasil não enlutou para jogar ontem e hoje as semifinais do futebol) trataram a morte do grande dirigente, porém, mostra como as coisas estão mudando.

Havelange poderia ser referendado como o grande dirigente que levou os Jogos a serem esse colosso. No entanto, foi completamente ignorado durante o evento em que, sete anos atrás, projetava que seria a celebração de seus 100 anos de idade entre aqueles que sempre tiveram a seu lado.

Ao Havelange ser colocado no ostracismo, percebemos que o esporte começa a mudar sua configuração. Não cabe mais um dirigente corrupto entre os grandes do esporte.

Por mais que tenha sido grande responsável por toda a transformação do esporte como negócio, pode ser que Havelange tenha sido apenas o cara na hora certa. Com o apetite de investimento da mídia e das marcas nos anos 80 pelo esporte, era natural que ele se tornasse um grande negócio… O ocaso com que sua morte foi tratada pelos seus pares, porém, mostra que as coisas estão mudando.


A imensa construção de histórias das Olimpíadas
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Erich Beting

Os Jogos Olímpicos possuem uma capacidade enorme de geração de boas histórias. E de colocar em conflito constante o que acontece na disputa esportiva com aquilo que vivemos na vida real. Desde o início dos Jogos, criamos no Boletim Máquina do Esporte uma seção dedicada ao Personagem do Dia. Não é o campeão do dia, mas aquele que traz a maior história humana sobre o evento.

Historicamente, os Jogos são marcados por grandes histórias, mais do que grandes campeões. De vez em quando, muito raramente, as duas coisas ocorrem juntas. Ontem, nos 100m livre feminino da natação, essa união se deu de forma mágica.

Uma prova que teve duas campeãs empatadas em 52s70, novo recorde olímpico. Mas que também teve a primeira campeã olímpica nascida neste milênio, a canadense Penny Oleksiak. Mas que entrará para a história como a prova que coroou a primeira negra campeã da natação nas Olimpíadas, a americana Simone Manuel.

“Essa vitória ajuda a trazer esperança de mudança sobre algumas questões que estão acontecendo no momento. Eu só fui lá e nadei o mais rápido que eu podia, mas minha cor de pele vem com todo meu repertório para isso”, declarou Simone.

Por solicitação da TV americana, as provas da natação acontecem no fim do dia aqui no Rio. Tudo para que a audiência dos Jogos seja cada vez mais alta.

E, ontem, a piscina do Rio 2016 presenciou a construção de uma nova história olímpica. Os EUA vivem um período de intensa discussão sobre conflitos raciais, especialmente envolvendo policiais brancos contra americanos negros. Soma-se a isso uma preocupante escalada de Donald Trump e seus conceitos um tanto quanto radicais nas prévias eleitorais americanas.

Simone Manuel não é só a primeira negra a vencer a natação em Jogos Olímpicos. Mais do que isso, ela mesmo sabe que sua conquista acontece num momento emblemático de aumento dos conflitos raciais, étnicos e religiosos pelo mundo inteiro.

A vitória de Simone Manuel e Penny Oleksiak nos 100m livre feminino é a prova de que os Jogos Olímpicos são formados não por vencedores, mas por ótimas histórias. Às vezes, até em menos de um minuto de prova…


É preciso aprender a treinar para a derrota
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Erich Beting

Jogar em casa ajuda ou atrapalha? A pergunta deverá ser feita para praticamente todos os 465 atletas do Time Brasil nesses Jogos Olímpicos. Já vinha, aliás, sendo feita por nós da mídia, vocês da torcida, pela turma de dirigentes, talvez quem sabe até pelo psicólogo do atleta…

Essa inquietação em dar tanta bola assim para a torcida mostra que não estávamos preparados para saber o que fazer com o fator casa nos Jogos Olímpicos. Será que jogar em casa requer mais preparo? Ou menos afobação? É preciso ser coração ou razão? Ansiedade demais ajuda ou atrapalha?

O fato é que o Brasil não sabe perder. Não conseguimos ainda entender a lidar com a frustração da derrota. Com a necessidade de nos explicarmos diante das câmeras, para nossos pais, cônjuges, filhos, muito menos para o nosso travesseiro.

Perder é sofrido. O choro de explosão de Diego Hypólito quando finalmente completou um exercício de solo sem falhas numa Olimpíada é exatamente o reflexo dessa nossa difícil relação com a derrota.

A expressão “o que é que eu vou dizer lá em casa?'' parece incomodar demais e atrapalhar demais o atleta.

Deve ser cultural. Somos um povo que acredita que os problemas se resolvem quando encontramos o culpado. É só apontar o dedo que, milagre, resolvemos as coisas. E isso passa a ter um reflexo direto na condução da atitude de nossos atletas, especialmente quando joga em casa.

Foi a crucificação de Rafaela Silva em 2012, para o cala-boca de 2016. E se Rafa não tivesse vencido agora? Ela estaria preparada para nova frustração olímpica? E nossa torcida, saberia perder junto com ela?

Novak Djokovic chorou copiosamente ao cair para Del Potro na primeira rodada do tênis. Minutos depois, refez-se publicamente da desilusão, disse que as derrotas faziam parte, mesmo as mais doloridas, declarou-se feliz pela conquista de seu amigo argentino que volta e meia sofre com lesões. Ele sabia que um novo dia começaria. Já está pelo Rio aproveitando um pouco a indigesta folga para torcer por atletas do seu país.

Por aqui, nossos atletas mostram que ainda não sabem lidar com a frustração da derrota. Cesar Cielo, que era a grande aposta do mercado publicitário, sumiu após não se classificar para o Rio. Rodrigo Pessoa abandonou o time de hipismo ao saber que seria suplente. Alguns atletas têm evitado dar entrevistas quando as coisas não saem como o planejado (o time de futebol antes dos 4 a 0 é um dos exemplos disso).

O atleta precisa estar preparado para a derrota. Não é ensaiar o discurso e ser vazio ao responder sobre ela quando questionado. Um grande atleta precisa saber se comunicar. Sumir diante do problema é só mais uma prova de que ele não sabe perder. Os Jogos no Brasil podem ser uma ótima oportunidade para mudar essa falha histórica.

Temos de treinar não apenas para vencer. Mas para saber o que fazer quando perder. Passar a mão na cabeça do atleta e evitar sua exposição para falar sobre uma derrota é só um desserviço que nossos gestores fazem para o desenvolvimento do esporte no Brasil.


Filas no Rio mostram imaturidade na gestão esportiva no Brasil
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Erich Beting

As irritantes filas nas arenas olímpicas persistiram no segundo dia de Jogos. Na tentativa de encontrar os motivos para faltar comida, levar 1h para comprar um refrigerante ou comprar um item e ele ter acabado no tempo em que se esperava, o Comitê Rio 2016 argumentou que há uma “falha operacional''.

A tradução para a frase é: “imaturidade''.

O Rio 2016 mostra que não aprendeu absolutamente nada com a Copa do Mundo. Ou mesmo com a realização do Rio Open, desde 2014, na mesma Cidade Maravilhosa. Isso para não considerarmos Carnaval e Copa do Mundo na lista…

O espetáculo esportivo continua sendo encarado, por aqui, como algo que só tem um local para acontecer, que é dentro da arena. O espaço para a competição precisa estar em ordem. E só.

É exatamente essa visão antiquada de como se trabalhar o evento esportivo que o futebol começou a quebrar pós-Copa. Entendemos que não seria possível mais esquecer de olhar para o torcedor, a mídia, o patrocinador. Hoje eles também são importantes para o espetáculo. Não mais do que o atleta, sem dúvida, mas precisam ser bem tratados.

Foi assustador chegar ao Parque Olímpico ontem e me deparar com a logística de compra de alimentos e bebidas, tanto nas arenas quanto nas áreas de conveniência do local que mais recebe gente nos Jogos.

Todos os alimentos e bebidas são comprados num caixa único. Ou seja. Se eu quero uma pipoca, tenho de ir lá na mesma fila de quem quer uma água ou uma cerveja. E, depois, eu tenho de me espalhar pelos diferentes quiosques de entrega de produtos.

O responsável por pensar essa logística, muito provavelmente, nunca foi a uma festa junina de escola primária.

Em vez de pulverizar os canais de compra, concentra-se tanto a compra quanto a distribuição. Não precisa ter nem experiência em megaevento para saber que isso torna até mesmo a compra de cinco pessoas num mesmo lugar inviável.

O Rio 2016, preocupado em erguer ótimas arenas e dar o máximo de qualidade para os atletas, esqueceu-se de que o show também tem um importante ator. O torcedor foi simplesmente ignorado. Esquecem-se, os organizadores, que são eles que espalham a fama do evento.

Quem está em casa vendo pela televisão uma partida de basquete pode achar que o ginásio estava com muitos lugares vazios. Pois saiba que tem muita gente que está na parte interior da arena, há meia hora, esperando para pegar uma ficha, para então ir para outra fila, para pegar apenas um saquinho de pipoca…

E a organização está tão perdida na resolução do problema que continua a importar food trucks, não entendendo que o problema não é apenas a falta de produto, mas os canais de venda.

Muito provavelmente não falharemos como Atenas e o padre irlandês, ou como a  China no sumiço da vara de uma competidora no salto com vara que era favorita à medalha.

Mas erramos num princípio básico dos grandes eventos, que é causar uma ótima impressão para o torcedor levar adiante uma boa imagem dos Jogos e da cidade que o abriga.

As falhas na organização da alimentação dos torcedores são a prova de que seguimos imaturos na gestão esportiva aqui no Brasil…