Negócios do Esporte

Copa prova que Brasil não sabe faturar com estádio
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Erich Beting

É alarmante, para dizer o mínimo, o resultado apresentado pela Visa com os números relativos às transações financeiras que aconteceram dentro dos estádios na Copa do Mundo. A preocupação não é tanto com o consumo de R$ 30 milhões apenas com os meios de pagamento da empresa de cartões, mas com o quanto isso deixa evidente que o futebol no Brasil não sabe explorar seu produto (detalhes podem ser vistos aqui).

 

Numa conta rápida, já que não se tem os detalhes do faturamento da venda em dinheiro, dá para crer que cada jogo da Copa movimentou cerca de R$ 1 milhão só com a venda de bebidas, comida e produtos licenciados. Um estádio da Fifa não traz praticamente nada de diferente para que o consumidor deixe muito dinheiro nele. No máximo as lojas oficiais são os pontos de venda mais concorridos. Imagine se houvesse outros pontos de interesse para a pessoa gastar?

Os estádios precisam, cada dia mais, serem vistos como centros de consumo. Devem ser planejados para abrigar um número significativo de lojas e opções de alimentação para as pessoas. A experiência do torcedor precisa ser feita para que ele chegue com pelo menos três horas de antecedência e sair duas horas depois da partida (logicamente nos jogos de fim de semana, quando há mais tempo para isso).

Ao fazer isso, além de ter menos transtornos com o deslocamento da torcida, há muito mais opção de geração de receita para os gestores dos estádios. Se a Fifa, mesmo sem grande esforço, conseguiu faturar quase R$ 1 milhão em vendas por jogo da Copa, o que dirá dos clubes de futebol no Brasil, que podem explorar semanalmente essa fonte de receita e, mais do que isso, criar motivos para que o torcedor queira consumir ainda mais?

Três dias depois do término da Copa do Mundo, alguns dos estádios que estiveram no Mundial receberam partidas do Campeonato Brasileiro. Nem mesmo os quiosques de alimentação estavam presentes na área que foi criada pela Fifa para ser o ponto de encontro – e consumo – dos fãs.

Os clubes no Brasil ainda acham que a bilheteria é a receita primária de um estádio, sem perceber que o melhor é enchê-lo de gente. E, então, faturar. Enquanto os dirigentes ainda querem se vangloriar de quem ganha mais com a venda de ingressos, muito mais inteligente seria debater quanto cada torcedor deixou de seu dinheiro no dia de jogo.

Só com ações desse gênero será possível reduzir a dependência de fontes como patrocínio e televisão no futebol. O potencial, ficou claro, existe.

Em tempo. Para quem acha que os números altos da Fifa são por conta do torcedor estrangeiro, o consumidor brasileiro foi responsável por gastar R$ 19 milhões desses R$ 29 mi nos estádios. Dinheiro para ser gasto existe. Falta ter motivo para isso.


CBF deverá escolher a dedo o diretor de comunicação
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Erich Beting

Uma das coisas que espero que Dunga tenha aprendido na primeira passagem como técnico da seleção brasileira é a importância de se tentar manter um cordial relacionamento com a imprensa. No BBB institucionalizado desde sempre no time nacional, tão importante quanto criar padrão de jogo e dar condições para que os jogadores evoluam está a necessidade de manter a mídia em sintonia contigo.

A volta dele após quatro anos à seleção brasileira pode dar certo. Mas passa, essencialmente, por uma nova forma de Dunga se relacionar com a imprensa. Por que isso se reflete, diretamente, na forma como a opinião pública vai encará-lo durante o período à frente da seleção.

Esse, hoje, é o maior desafio dele como treinador. A base da equipe está montada, é muito melhor do que a geração que ele formou em 2010 e ainda tem a experiência de fracassar numa Copa em casa, algo que ajuda a criar mais elementos de superação para motivar os atletas e a comissão técnica nesse trabalho.

Mas, se não houver um trabalho pesado de “media training'' com Dunga, tudo isso pode virar pó na primeira derrota mais aguda. Só de acompanhar, pelo Twitter, os comentários dos jornalistas sobre as respostas do treinador, já deu para sentir que o rancor da mídia permanece aflorado.

Não temos, no Brasil, a cultura de pensar em médio e longo prazo e, muito menos, de sermos permissivos a uma segunda chance. Dunga pode ter mudado, evoluído e aprendido a ser mais maleável com a imprensa. Da mesma forma que a imprensa pode também ser mais complacente. Isso só vai ser possível notar com o começo dos trabalhos.

Dunga é uma aposta boa da CBF por vários motivos, mas o principal deles é essa atribulada relação do treinador com a mídia. Dunga é filho que não foge à luta, como diz o verso do hino nacional. Assim, ele vira um baita de um escudo para quem está atrás da linha de frente e que deveria ser o principal foco do questionamento.

Esperar uma renovação na CBF é tarefa impossível. Se isso viesse a acontecer, precisaríamos dar mais condições para quem está mais qualificado. E isso implica, necessariamente, em mudar o topo da cadeia (im)produtiva do futebol.

Dunga, quatro anos depois, é a velha solução para os eternos problemas da CBF. Com a experiência da primeira queda, pode ser que dê muito certo. Uma coisa é certa.

Escolher quem será o novo diretor de comunicação da CBF é vital para que o castelo não desabe na próxima Copa…


A Copa do Mundo foi uma realidade paralela no futebol
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Erich Beting

Há uma semana, os olhos do brasileiro estavam voltados para o estádio do Maracanã. Mais de 70 mil pessoas estavam ali, presenciando um belo espetáculo de futebol. Outros milhões grudaram os olhos na tela de TV, computador ou qualquer outro meio de comunicação audiovisual. Assistimos entusiasmados ao fechamento da “Copa das Copas'', ou de pelo menos um dos melhores Mundiais de futebol dos últimos 30 anos.

A consagração da Alemanha, a bravura argentina, de enorme dedicação tática e técnica para tentar frear um time notadamente superior, alguns dos melhores jogadores da atualidade… Teve de tudo um pouco naquele ensolarado fim de tarde no Maraca.

Passada uma semana, o Maracanã ainda não voltou a ter jogo. Mas já tivemos duas (SIM, DUAS) rodadas do Campeonato Brasileiro. E duas notícias entre as várias nesta noite de domingo são:

“Torcidas do Inter entram em conflito e depredam posto de gasolina''.

“André Santos é agredido por torcedores do Flamengo na saída do vestiário''.

A conclusão mais óbvia que se chega é que a Copa do Mundo parece ter representado uma realidade paralela ao nosso futebol. Durante um mês tivemos diversos exemplos de como assistir a uma partida de futebol pode ser um programa para ir com família, amigos, ou até mesmo sozinho. Não é só por uma paixão religiosa que devemos nos locomover a um estádio, mas por ser algo interessante para fazer no momento de lazer.

Poderíamos ter aprendido bastante com o tal do “Padrão Fifa''. Sem levá-lo para o lado oportunista da entidade ou dos anti-Fifa. Afinal, o Padrão Fifa está longe de ser exemplo de como colocar o fã na condição de consumidor e principal ativo a ser trabalhado pelo esporte. Mas, dentro do universo combalido do futebol brasileiro, a exigência  de um nível mais alto no tratamento do fã como consumidor serviria para fazer com que as coisas melhorassem minimamente.

Não é possível que, nem dez dias depois de termos vivenciado 30 dias de um futebol de altíssima qualidade, tenhamos voltado à selvageria plena.

O futebol no Brasil está cada vez mais restrito ao fanático. E isso é um imenso problema para o futuro dessa indústria. Por maior que seja o contingente de fanáticos, eles são muito mais propensos a serem irracionais na relação com essa paixão.

A Copa do Mundo deveria ter servido de exemplo para começarmos a exigir transformações. Mas ela está cada vez mais com cara de que foi uma realidade paralela que invadiu o cotidiano do futebol brasileiro por 30 dias…


O problema não é (só) a seleção
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Erich Beting

Sai Carlos Alberto Parreira e entra Gilmar Rinaldi. Esse é, pretensamente, o início de uma mudança na seleção brasileira de futebol. E é, também, a prova de que podemos trocar os nomes que forem, mas que nada de fato poderá sofrer alteração.

No dia da humilhante derrota brasileira para a Alemanha, escrevi neste espaço que os 7 a 1 poderiam servir para ensinar o futebol do Brasil que é preciso mudança.

Ao ver as primeiras repercussões sobre a mudança de coordenador de seleções da CBF, fica claro que, mais uma vez, boa parte da mídia simplificou o problema e estamos caminhando para não usar o rolo compressor germânico como espécie de “cantinho do castigo'' para aprendermos a lição.

O problema não é a seleção brasileira de futebol. Ou melhor. Não é só quem dirige a equipe principal do país ou quem coordena todas as seleções que representam a nação.

O enrosco hoje é o futebol praticado no Brasil.

Quem assistiu aos jogos dos últimos dois dias desta volta garganta abaixo do Brasileirão das Séries A e B vê isso com facilidade. Saiu o futebol coletivo, de velocidade, trocas de passes e algumas jogadas individuais e entrou esse amontoado que costumamos chamar de “futebol brasileiro''.

Não há Gallo, Rinaldi ou Guardiola que resolva isso só trabalhando na esfera da seleção brasileira. Continuar pregando renovação baseado na premissa de que talentos brotam naturalmente nessas terras e que falta só um bom treinador para dirigir o time nacional é ignorar o contexto em que o futebol está inserido nos dias de hoje.

O exemplo alemão, que virou moda agora com o título mundial, não vem da conquista de domingo passado, mas de um trabalho de médio e longo prazo, que começou com a renovação de todo o futebol alemão.

Entenda-se por todo a cadeia inteira do futebol: atletas, treinadores, dirigentes, comissão técnica, patrocinadores, governantes, jornalistas e, por fim, torcedores. São esses, a grosso modo, os componentes da indústria do futebol.

Não é apenas o técnico que precisa se reciclar no Brasil. A mídia, os patrocinadores, os torcedores, todos precisam rever seus conceitos.

- Os jornalistas precisam aprender a ver jogo de futebol, e não a considerar sucesso apenas o resultado dentro de campo.

- A mídia, que transmite o evento, precisa entender seu papel na formação de um produto de qualidade. É aceitar sentar e dialogar em vez de usar o fator econômico para não perder o poder e manipular o futebol como quer para continuar a pagar pouco por ele.

- Os patrocinadores, da mesma forma, precisam entender que eles também precisam valorizar e melhorar os seus parceiros.

- Os torcedores são aqueles responsáveis por financiar e fiscalizar o bom andamento do futebol. É o dinheiro dele que dói na hora que há uma má gestão de um clube, quando um atleta vai embora, etc. Se ele paga por isso, precisa cobrar também.

E aí entramos na questão crucial, que é a melhoria daqueles que trabalham diretamente no futebol.

Os atletas, a grosso modo, começaram um movimento ainda desordenado, mas importante, de questionamento e enfrentamento. Baseados na experiência que viveram ao jogar no exterior, começaram a pedir melhores condições de trabalho por aqui.

Os dirigentes aos poucos se qualificam, mas raros são aqueles bem preparados que chegaram ao topo da cadeia. Ainda são os mesmos de 30, 40 anos atrás, que dominam e ditam os rumos do futebol.

E os treinadores são apenas o reflexo dessa cadeia empobrecida. Sem a qualificação do todo, como é possível exigir deles um bom desempenho?

As empresas que são líderes de mercado e conseguem manter-se no topo são quase sempre aquelas que apresentam maior capacidade de inovação. São aquelas que não param no tempo, que estão a todo instante se adaptando às mudanças que o mundo impõe.

Por isso, trocar Parreira por Rinaldi não muda nada. Da mesma forma que dificilmente mudaria muita coisa trocar Scolari por Guardiola (no máximo conseguiríamos jogar um futebol mais coletivo).

O futebol brasileiro perdeu sua capacidade de inovação, que é muito diferente de improvisação. Enquanto não estimularmos a inovação, estaremos fadados a tentar viver de lampejos de improviso. Em 2014 ficou provado que isso não resolve mais.

 


A Copa que nos apresentou para o futebol
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Erich Beting

Havia duas incertezas muito grandes para mim antes do início da Copa.

A primeira, que não era só minha, era a nossa real capacidade de realização do evento. Nossa história sempre foi baseada no improviso. É cultura brasileira. É acreditar, e trabalhar para que “no fim dê tudo certo''. Confesso que tinha muito receio, com base no que vivenciei na Alemanha, em 2006, e na África, em 2010, de que fosse ser possível fazer tudo correr bem mesmo sem estar 100% preparado e ajustado para receber o Mundial.

Mais uma vez, nossa habilidade em improvisar foi colocada à prova. E passamos no teste com louvor!

A outra dúvida era com relação ao comportamento do público durante o evento. Achava, e aí era achismo puro, que o brasileiro não se empolgaria tanto pelo evento. Somos, também culturalmente, mais propensos a gostar da Copa do Mundo enquanto o Brasil faz parte dela. Quando não jogamos, também não acompanhamos o torneio. O brasileiro, afinal, gosta mais do Brasil que do futebol.

Nesse caso, a surpresa foi muito, mas muito mais positiva. A Copa do Mundo, afinal, nos ajudou a apresentar para o futebol. A facilidade de acesso da mídia às seleções ajudou muito nisso. Com equipes muito maiores, nossos veículos foram buscar histórias que iam além do que apenas a rotina maçante da “empolgante'' seleção brasileira em Teresópolis. Foi uma das primeiras vezes em que tivemos jornalistas acompanhando todas, ou quase todas, equipes.

Isso ajudou, e muito, para que a audiência da Copa na TV crescesse como nunca. O Mundial de 2014 foi um dos que apresentou os melhores índices de audiência nos jogos em que o Brasil não estava em campo.

Essa situação nos leva a um grande aprendizado para o futebol que segue depois da Copa. Interesse em consumir o futebol existe, desde que não seja dada ao consumidor meia dúzia de opções.

No fim das contas, quebrei a cara com as duas grandes dúvidas que tinha. Ainda bem! A Copa do Mundo foi espetacular em diversos sentidos. Problemas existiram, é claro, mas o evento em si superou as expectativas. O clima contagiante seguiu até mesmo após o encerramento do jogo que consagrou a Alemanha, pelas ruas do Rio de Janeiro tomado por argentinos, alemães e bralemães.

Esse é o grande barato do futebol. Poder torcer não apenas pelo seu time, mas pelo jogo bem jogado.

Garantir uma grande cobertura de mídia e o interesse do público num evento que não seja a Copa do Mundo é o próximo grande desafio do Brasil. É parte da nossa lista de tarefas para fazer o futebol voltar a ser motivo de orgulho, e não apenas receber um bom evento de futebol.


Agora, Alemanha dá aula de como ganhar o Brasil
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Erich Beting

Semifinal da Copa do Mundo de 1962. O Chile, país anfitrião, é derrotado por 4 a 2 pelo Brasil e dá adeus ao sonho do título. Quatro dias depois, a seleção brasileira seria bicampeã mundial e daria a volta olímpica no estádio Nacional empunhando uma bandeira chilena, para delírio do público, que assumiu a torcida pelo Brasil.

Semifinal da Copa do Mundo de 2014. O Brasil, país anfitrião, é derrotado… (ok, para poupar nosso fígado, vamos parar por aqui).

No dia seguinte ao rolo compressor da Alemanha, jogadores e a própria federação alemã usam as redes sociais para pedir desculpas ao povo brasileiro, relembrar a história vitoriosa de nosso país e reforçar a importância do futebol brasileiro para o mundo. Derrotas acontecem, os alemães apenas fizeram seu papel de ganhar o jogo, etc.

A humilhação imposta pelos alemães não consegue gerar ódio ao time vencedor. Apenas temos de nos curvar diante da superioridade técnica e tática que foi demonstrada pela seleção germânica e tentar aprender com isso. Mas é curioso como parte dessa situação tem ligação direta com o comportamento dos vencedores durante e após a partida.

O preparo que a Alemanha fez para disputar a Copa do Mundo por aqui vai além das quatro linhas. Os alemães também vieram dispostos a ganhar não só do Brasil, mas principalmente o Brasil. Para isso, têm dado um show de comunicação.

Uso de redes sociais com declarações em português, interação máxima com não apenas a população local, mas com parte da história do país, como as tribos indígenas, juras de amor ao país (é só seguir as redes sociais do Podolski para ver). Até mesmo a camisa Rubro-Negra, imitando a do Flamengo, que foi um projeto da Adidas, mostra-se agora extremamente bem-sucedido.

O fato é que a Alemanha deu uma aula. Aniquilou dentro de campo o time local e, fora dele, está há cerca de um mês trabalhando a imagem para ser simpática e, assim, ganhar a torcida local. Tal qual fez o Brasil em 1962, os alemães podem terminar dando a volta olímpica no Maracanã com a bandeira verde-amarela, fechando com chave de ouro o planejamento montado para esses cerca de 30 dias inesquecíveis no Brasil.

Seria a comprovação do velho ditado de que gentileza só gera gentileza…


A temerária covardia dos patrocinadores da seleção
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Erich Beting

“Mostra a tua força, Brasil'', “Imagine a festa'', “#tamoconectado'', “#jogapramim'', “Ouse ser brasileiro'', etc.

Esses foram alguns dos bordões usados pelos patrocinadores da Copa do Mundo e/ou da seleção brasileira nos últimos 45 dias para tentar aproveitar o momento do Mundial e engajar-se com o torcedor, pegando carona no desempenho do time brasileiro em campo.

Na terça-feira, tão logo terminou o desastre no gramado do Mineirão, mantive a TV ligada sedento pelo intervalo comercial. Entrou o intervalo da Globo, quase meia hora após o jogo, e nada…

Nenhuma propaganda do Itaú, da Brahma ou da Sadia. A Hyundai continuava com a hexagarantia, que antes era atrelada à vitória do Brasil, mas que teve logo no início da Copa de mudar na Justiça para algo como “durante a Copa quem comprar o carro terá seis anos de garantia de fábrica''. A Johnson, com o seu “carinho inspira carinho''. A Oi e a Coca-Cola mantinham a campanha que sempre circulou e que pouco tinha a ver com o Brasil em si, mas muito mais com serviços (no caso da operadora de telefonia) e com o Mundial (no caso da Coca).

Onde estavam os que ousaram ser brasileiro? Os que arriscaram tudo? Os que amarraram o amor na chuteira? E os que pediram para que jogassem para eles? E a festa? Ainda era para imaginar ou tinha acabado?

Bom, já que não tinha nada na TV, vamos para as redes sociais. Ali pulsa a Copa do Mundo. Nunca antes um Mundial foi tão comentado, curtido e compartilhado como este… Tanto que, há alguns dias, o periódico “Meio & Mensagem'' trazia extensa reportagem sobre os QGs montados pelas marcas, carinhosamente apelidados de “salas de crise'', em que dezenas de pessoas ficavam ali, monitorando freneticamente o que se passa em Facebooks, Twitters e congêneres.

Por lá, só a Garoto brincava que havíamos experimentado um chocolate indigesto, seguindo a linha do “Chocolate Neles'' no momento em que o chocolate foi “deles''. A Visa decretava a quarta-feira de cinzas. A Gatorade, que sempre disse que o suor fazia mágica, saudava o Brasil mesmo na derrota e nos mandava voltar para o treino, que é onde se ganha jogo (parece que só o Felipão esqueceu isso). A Coca-Cola tinha um canudo com o “nó na garganta''. E uma ou outra marca relembrava o desastre a seu modo.

Mas nada de saber se ainda era para arriscar tudo, amarrar o amor na chuteira, imaginar a festa, conectar ou desconectar.

As marcas que mais investiram em campanhas de mídia para promover o Brasil na Copa do Mundo tinham simplesmente desaparecido!! Pior, algumas tinham decidido tirar do ar a comunicação que foi motivo de euforia até horas antes e ficar quieta, como se nada tivesse acontecido nos últimos 40 dias.

Em 2006, entrou para a história a falta de timing do banco Santander, que criou uma enorme campanha envolvendo os atletas da seleção e, quando o Brasil perdeu da França, a campanha publicitária que foi ao ar era a mesma de antes do fracasso. Da mesma forma, não por erro da marca, em 2010 o Extra ficou marcado por “eliminar'' com uma rodada de antecedência o Brasil, num erro que pode ser creditado à “Folha de São Paulo'' de ter colocado o anúncio que estava preparado para o caso de derrota brasileira em vez daquela da vitória.

Agora, porém, o buraco é muito, mas muito mais embaixo.

Um dos maiores aprendizados que a Copa deixa para as marcas é que é importante “defender'' o patrocínio. Tivessem os patrocinadores desde o começo apostado e valorizado na realização do Mundial, provavelmente o clima pré-Copa tivesse sido muito melhor, com mais ganho comercial até mesmo para eles.

Poucas marcas resolveram realmente apostar nisso. E estavam se dando muito bem, como o Itaú com a excelente música “Mostra a Tua Força Brasil'', ou a Brahma, com a iniciativa de não só imaginar, mas realizar a festa para torcedores em 700 diferentes cidades com grandes necessidades pelo país.

Só que, quando o time desandou dentro de campo, a comunicação desandou junto. Faltou coragem para as marcas assimilarem o golpe e reconhecerem o óbvio. Sem ufanismo ou euforia, mas enaltecendo o patrocínio à seleção brasileira. Nesse sentido, só a Sadia, com campanha em mídia impressa, trocando o #jogapramim por #tamojuntinho, conseguiu manter-se fiel ao que havia criado.

Nenhuma outra empresa buscou assimilar o golpe e criar uma comunicação de amparo ao time brasileiro.

O problema dessa covardia dos patrocinadores é que, com isso, eles começam a deixar, no consumidor, a pior imagem possível. O grande segredo de uma relação positiva entre marcas e esporte é o entendimento de que é preciso apoiar vitoriosos e derrotados, a seu modo, claro, e sempre respeitando a essência do esporte.

Quando só há preparação para se comunicar nas vitórias, o patrocínio passa a ser visto, pelo consumidor, como oportunista. E isso é o maior risco para as marcas. O “#tamojunto, #peronomucho'' que se viu agora no caso da seleção brasileira é a prova de que os patrocinadores ainda precisam aprender, e muito, a trabalhar a comunicação no esporte.

O mundo cada vez mais conectado exige das empresas agilidade e competência na comunicação. A covardia que se mostrou no caso do desastre da seleção brasileira explica, e muito, como as empresas ainda não aprenderam a trabalhar com esporte no Brasil.


Será que vamos aprender?
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Erich Beting

“Assistimos hoje a uma aula de futebol''. Se estivesse em campo, o atacante Neymar muito provavelmente teria de recorrer novamente à frase usada após os 4 a 0 do Barcelona no Santos, lá em 2011. O Brasil tomou uma aula de futebol, que seria dada com ou sem o melhor jogador de uma seleção que sempre foi um punhado de individualidades e nunca um time formado.

Mas será que a humilhação desta terça-feira será suficiente para ajudar o Brasil a aprender?

Podemos bater no peito e dizer que não há nenhum outro pentacampeão, mas da mesma forma não podemos ficar nesse mesmo discurso por outras Copas.

Foi acachapante a forma como a Alemanha dominou o jogo. Não foi um acaso, não foi o “apagão'' que Felipão tentou mais de uma vez convencer de que seria o motivo da derrota.

Os alemães repensaram a maneira como jogavam futebol há 12 anos. E construíram uma geração que joga de outra forma, coletivamente, preocupada em defender e atacar em bloco. Da mesma forma, a Copa do Mundo de 2006 foi fundamental para repensar a relação com o torcedor do futebol.

Tudo isso fez a diferença nesta terça-feira.

O Brasil precisa, agora, rever não apenas os 7 a 1 para tentar entender o que houve dentro de campo. É preciso viajar para a Alemanha, conversar com os diretores da Bundesliga, com os gestores de estádio, com os patrocinadores, com a mídia. Saber por que o futebol alemão mudou tanto daquele 30 de junho de 2002 e o brasileiro regrediu tanto.

Daquela final em Yokohama, só Klose e Felipão estavam presentes agora no Mineirão. Klose por ser o único centroavante de área remanescente de um país que deixou de jogar da forma como sempre jogou. Felipão, por ser o único nome com mais respeito da opinião pública para garantir a bronca de evitar a pressão sobre uma seleção de jovens atletas.

O problema brasileiro é generalizado. Os 7 a 1 não são fruto de um apagão. Fazem parte de uma diferença abissal que existe hoje na gestão do esporte. Isso ficará claro quando, daqui uma semana, voltarmos a ter de acompanhar o Campeonato Brasileiro. Será que agora vamos aprender? O problema dentro de campo é reflexo do que acontece fora dele.

É óbvio, mas agora ficou muito mais claro.


Brasil conquista o maior legado da Copa
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Erich Beting

A Operação Jules Rimet, deflagrada pela Polícia Civil brasileira, pode ser considerada como o maior legado da Copa no Brasil. Ao que tudo indica, a polícia conseguiu chegar ao alto comando de um enorme esquema de cambismo de ingresso que já vem de outros Mundiais. Mais do que isso, começa a fechar o cerco contra uma prática que já foi comprovada no passado e que faz uma polpuda poupança para muita gente periférica do mundo da bola.

O interessante nessa história é que já se passaram tantos outros Mundiais, sempre houve um jeito aqui e ali para conseguir ingressos “quentes'' a preços mais altos que o praticado, de forma quase que sub-oficial, e pouco se viu de interesse em desmontar esses esquemas.

A prisão do diretor da Match Hospitality Raymond Whelan, apontado como o chefão das vendas ilegais aqui no Brasil liga um enorme sinal de alerta dentro da Fifa. Ok, é possível dizer oficialmente que não há qualquer relação, a Match apenas presta serviços à entidade e quetais. Mas é sempre bom lembrar o vínculo da Match com a Infront que, por sua vez, tem como sócio um dos sobrinhos de Joseph Blatter, presidente da Fifa.

O enrosco é grande. E poderá desencadear em outra crise dentro da entidade, já às voltas com a enrolada escolha do Qatar como sede da Copa do Mundo de 2022. Muito provavelmente o escândalo deflagrado pela polícia brasileira poderá gerar nova crise na Fifa. E fará com que o próprio sistema de venda de ingressos da entidade passe por revisão, a exemplo do que aconteceu em 1998, quando houve muitos problemas com cambismo e falta de bilhetes na França (inclusive com centenas de brasileiros nesse barco).

O fato é que o Brasil conseguiu, ao atirar com mira a laser na operação de cambismo de ingressos, construir um dos maiores legados da Copa do Mundo no país. Resta saber se, passado o holofote do Mundial, a polícia terá interesse também em descobrir as práticas semelhantes que são feitas nos jogos de futebol envolvendo clubes brasileiros…


Ibra destrona Ronaldo no papel de embaixador da Nike
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Erich Beting

Primeiro foi a campanha “Vem, Ibra''. Depois, a tiração de sarro com o atacante na animação divulgada pouco antes da Copa. Agora, a transformação do boneco animado num grande brincalhão neste Mundial. Aos poucos, a Nike vai preparando o sueco Zlatan Ibrahimovic para ser o novo Eric Cantona da marca.

Carismático, o atacante sueco do Paris Saint-Germain está se tornando um novo caminho para a Nike manter-se ativa entre o público jovem, tal qual foi com Cantona na década passada. Mas o mais curioso é ver que, aparentemente, Ibra está adorando o rótulo que a Nike começa a criar para ele.

O sueco parece estar sendo cunhado para assumir a função que competia a Cantona, atleta que fez sucesso em quem hoje está na faixa dos 30 a 40 e que, para o público mais jovem, principal objetivo da marca, não desperta praticamente nenhum tipo de emoção.

Com isso, caberá a Ibra, hoje próximo de completar 33 anos, ser o embaixador da Nike para o futebol no mundo todo, algo que naturalmente poderia ter sido aproveitado por Ronaldo ao aposentar-se do futebol.

A escolha pelo sueco e não pelo Fenômeno tem muito mais a ver com o perfil de cada um deles do que propriamente uma “falha'' de um ou de outro. Ronaldo nunca teve comportamento de “Bad Boy''. Ele sempre foi mais um grande embaixador pela qualidade demonstrada dentro de campo do que pelas atitudes que tomava dentro e fora dele.

Ibra, por outro lado, sempre foi um centralizador de polêmicas, bem ao estilo da Nike. Agressivo, marrento, criador de caso, mas dono de um talento com os pés raro, o sueco parece ser perfeito para a função. E, se ainda não consegue ser tão bem atuando ao vivo, como é o caso de Cantona, a sacada de usar as animações foi ótima para isso. Nos desenhos, cria-se um Ibra tão irreverente quanto é preciso. E, melhor ainda, não precisa depender da agenda dele para “gravar'' os comerciais.

Ao que tudo indica, Zlatan será pela próxima década o cara da Nike para falar de futebol. Uma pena para o futebol brasileiro que Ronaldo tenha ficado em segundo plano para esse posto…